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Das Favelas para o Inferno Congelado: Como Ex-Traficantes Brasileiros Procuram a Redenção nas Trincheiras da Ucrânia

Das Favelas para o Inferno Congelado: Como Ex-Traficantes Brasileiros Procuram a Redenção nas Trincheiras da Ucrânia

A guerra não escolhe os seus soldados, mas alguns soldados escolhem a guerra como a sua única via de fuga. Numa reviravolta assombrosa que parece ter saído de um guião cinematográfico, jovens brasileiros com um passado enraizado no tráfico de drogas do Rio de Janeiro estão a atravessar o oceano para se juntarem às linhas da frente do conflito mais brutal e sangrento da Europa. O que leva homens que viviam cercados pela violência constante das comunidades brasileiras a mergulharem voluntariamente no inferno gelado das trincheiras ucranianas? A resposta revela uma complexa teia de desespero financeiro, uma busca insaciável por liberdade e uma espantosa necessidade de redenção pessoal.

Conhecidos pelos nomes de código táticos que adotaram no campo de batalha — GS, Mestre e Predador —, três destes improváveis voluntários decidiram quebrar o silêncio e partilhar a sua realidade aterradora. Para eles, a viagem rumo ao leste europeu não foi de todo impulsionada por patriotismo estrangeiro ou por grandiosas convicções políticas, mas sim pela promessa de um recomeço total e, de forma muito mais pragmática, por um salário fixo que o crime organizado nunca lhes poderia oferecer de forma limpa e honesta.

Através das redes sociais, o recrutamento atrai os vulneráveis. Sem mandados de captura ativos ou cadastros criminais oficiais que os impedissem de sair do país, estes jovens financiaram os seus próprios bilhetes de avião, embarcando em voos comerciais com destino à mais pura incerteza. Na Ucrânia, o exército, visivelmente esgotado por anos de perdas humanas devastadoras que obrigaram até ao recrutamento de civis mais velhos, acolhe todos aqueles que estão dispostos a arriscar a pele. Com um contrato inicial assinado por seis meses, os soldados recebem o equivalente a mais de três mil euros mensais pagos na moeda local. “Temos alojamento, alimentação de manhã, à tarde e à noite, tudo perfeitamente regrado”, relatam. No entanto, o preço sombrio a pagar por esta aparente estabilidade financeira é quase sempre cobrado em sangue.

A rotina nas linhas da frente é um pesadelo sufocante que faz os tiroteios diários com fuzis nos morros cariocas parecerem uma memória distante. “A realidade aqui é totalmente outra”, confessa um deles, descrevendo o pavor constante incutido pelos implacáveis enxames de drones. Ao contrário do combate urbano corpo a corpo a que estavam tragicamente habituados, a guerra tecnológica na Ucrânia é fria, mecânica e invisível. Os drones sobrevoam os céus cinzentos como aves de rapina mortais, lançando granadas com uma precisão que não perdoa erros.

Os relatos vividos por estes homens são de cortar a respiração: horas intermináveis presos no escuro de bunkers subterrâneos sob intenso fogo de artilharia e missões de resgate que roçam o puro suicídio. GS relembra, com uma frieza adquirida apenas através do trauma, o dia em que o veículo da equipa da frente passou por cima de uma mina terrestre oculta. O saldo imediato? Um colega mutilado, sem os dois braços, e um céu apinhado de drones enquanto a equipa sobrevivente tentava organizar uma evacuação desesperada. “Vão doze, voltam dois. E nós temos de aprender a lidar com esta dura realidade”, desabafa, expondo a roleta russa diária que enfrentam.

Mas talvez a revelação mais chocante desta odisseia internacional seja a perspetiva profundamente perturbadora que estes jovens têm sobre o conceito de liberdade. De forma irónica, foi precisamente no meio das explosões ensurdecedoras e da constante ameaça de morte que estes homens sentiram que podiam respirar pela primeira vez. No Brasil, o envolvimento com as fações criminosas transformara as suas próprias vidas numa prisão a céu aberto. O medo paralisante de serem reconhecidos por membros de grupos rivais impedia-os de ir à praia tomar um açaí ou de desfrutar de um simples passeio seguro pelas ruas da sua cidade. Na Ucrânia, embora a morte espreite sem aviso em cada trincheira escavada na terra, não existem dívidas antigas a cobrar pelo crime, nem inimigos à espreita nas sombras do bairro onde nasceram.

Infelizmente, esta perigosa via de fuga cobra um pedágio altíssimo e, muitas vezes, fatal. As estatísticas oficiais são frias e cruéis: 31 brasileiros já perderam a vida neste campo de batalha internacional e mais de 60 continuam dados como desaparecidos. Do outro lado do mundo, as famílias aguardam num estado de angústia permanente. As mães, plenamente cientes do passado problemático dos filhos, agarram-se com todas as forças à esperança divina de que esta provação extrema os transforme em homens mais maduros, capazes de regressar a casa valorizando a paz longe das armas e do narcotráfico.

Para alguns deles, esse milagre da transformação absoluta já começou a desenhar-se na realidade. Num desfecho que traz um genuíno raio de luz a esta narrativa tão carregada de sombras, GS conseguiu finalmente mudar de forma radical o rumo da sua história. Após suportar meses de terror psicológico e físico na linha da frente, ele abandonou a guerra da Ucrânia e construiu uma nova base de vida em Portugal. Atualmente a trabalhar de forma digna e honesta como segurança privado em solo europeu, ele personifica a prova viva de que o ser humano é capaz de transcender os seus piores erros de juventude. “Hoje larguei a Ucrânia e continuo a fazer o que é certo aqui na Europa, procurando um nível mais elevado para a minha vida”, afirma orgulhoso. O dinheiro oriundo do crime, que em tempos parecia ser a via mais fácil, foi substituído pela enorme paz de espírito que apenas uma vida limpa pode proporcionar.

Esta é, em última análise, uma história brutal sobre instinto de sobrevivência e a busca incansável do ser humano pela sua própria dignidade. Mostra-nos de forma inequívoca que, mesmo nos cenários globais mais devastadores e improváveis, a vontade de recomeçar e reescrever o próprio destino consegue sempre ecoar mais alto do que o barulho destruidor das bombas.